Entrevista com o professor Richard S. Gates – Universidade de Illinois (EUA)

*Entrevista concedida ao Portal Biossistemas no dia 29/11/2012, durante o “I Encontro da Engenharia de Biossistemas FZEA/USP: Uma visão do cenário Internacional”. Por José Arthur Z. de Paula e Matheus H. Paes.

Portal Biossistemas: O senhor poderia nos contar brevemente sobre sua vida acadêmica?r_gates

Richard S. Gates: Concluí minha graduação na Universidade de Minnesota (EUA), em 1978, em Engenharia Agrícola. Fiz meu mestrado também em Engenharia Agrícola e meu doutorado em Engenharia Biológica, pela Universidade de Cornell (EUA). Trabalhei como professor e chefe do departamento de Engenharia Agrícola e Biológica da Universidade de Kentucky por mais de 24 anos, antes de ir para a Universidade de Illinois. Tenho trabalhado com Engenharia de Biossistemas desde sempre.

Portal Biossistemas: Quando começaram seus contatos com o Brasil?

Richard S. Gates: Não lembro exatamente, mas talvez tenha sido em 1998 ou 1999, quando vim dar uma palestra na Embrapa Suínos e Aves, em Concórdia (SC). Acabei conhecendo Viçosa (MG) nesse período também, havia um ex-aluno trabalhando como professor por lá e então lhe fiz uma visita.

Portal Biossistemas: Como está a Engenharia de Biossistemas na América do Norte?

Richard S. Gates: Está muito confusa. Os estudantes, assim como grande parte de nossa população, não compreendem o sistema de produção de alimentos. Eles não entendem a importância de certas modalidades da engenharia – como a Engenharia Agrícola – e, portanto, não se interessam por elas. Mas se você os apresenta uma coisa integrada, os estudantes se interessam. Nos Estados Unidos, hoje temos um mesmo curso com pelo menos 7 nomes diferentes: Engenharia Agrícola, Engenharia Biológica, Engenharia Agrícola & Biológica, Engenharia de Biossistemas, Engenharia Agrícola & Biossistemas, Engenharia de Sistemas Biológicos, Engenharia de Biorrecursos. No fim das contas representam uma mesma coisa, mas possuem nomes diferentes. Aqui no Brasil vocês estão tendo a oportunidade de definir o que é Engenharia de Biossistemas e colocar um só nome.

Portal Biossistemas: O senhor vê alguma diferença entre o curso oferecido aqui e o curso existente nos EUA

Richard S. Gates: A principal diferença não está na grade curricular, mas sim na forma em que é apresentada. Um estudante de engenharia lá deve cumprir aproximadamente 2.400 horas de aula, enquanto que aqui esse valor é o dobro. Oferecemos um menor tempo de aulas em sala e fazemos com que o aluno passe mais tempo desenvolvendo trabalhos fora dela. Não estou dizendo que assim seja melhor, mas é um sistema bem diferente. Lá formamos engenheiros em 4 anos, aqui o período é de 5 anos. Porém, acredito que mais de 50% de nossos estudantes de engenharia se formem mais tarde, com 4,5 ou 5 anos em média. No Brasil não sei qual a média de tempo para se formar, mas tenho certeza que é um pouco a mais também.

Portal Biossistemas: Como o senhor enxerga a situação da Engenharia de Biossistemas no Brasil?

Richard S. Gates: No Brasil ainda há um pensamento de que não se precisa de Engenheiros de Biossistemas, pois existe aqui uma forte tradição da Engenharia Agrícola. No entanto, o resto do mundo está mudando e o Brasil não vai querer ser o único que não possui esta nova engenharia, que abrange essa relação entre meio ambiente, produção de alimentos e energia. Faz parte de uma evolução. As demais engenharias têm estudado partes específicas de um sistema, não o conjunto todo. Portanto, a Engenharia de Biossistemas soa muito interessante para mim.

Muitas pessoas se questionam qual a diferença entre Engenharia Agrícola e a Engenharia de Biossistemas e acredito que elas não virão perguntar. Então cabe a vocês, docentes e alunos, mostrarem o quanto ambas são parecidas e também o quanto são diferentes, assim como que podem trabalhar juntos sobre os mesmos problemas.

Portal Biossistemas: Dentre todas as ferramentas e tecnologias disponíveis hoje, o senhor conseguiria identificar a mais importante?

Richard S. Gates: Eu diria que o mais importante é saber o que precisamos fazer já que estamos utilizando novas ferramentas e tecnologias. A resposta é que precisamos aprender a utilizar novas ferramentas e tecnologias ou ainda, inventá-las. Um equívoco que se comete enquanto engenheiro recém-formado é querer ser o melhor engenheiro para a tecnologia existente. É claro que você vai querer conhecer a melhor tecnologia, mas conforme você vai envelhecendo e ganhando prática na engenharia, você percebe que a tecnologia está em constante mudança. Você tem que ser esperto e mudar com a tecnologia, se não fica velho e ultrapassado.

Acho que uma questão mais adequada seria: o que podemos fazer para garantir que seremos os melhores engenheiros que podemos ser enquanto o mundo muda a nossa volta?

Portal Biossistemas: O senhor teria uma sugestão?

Richard S. Gates: Trata-se em garantir que está disposto a continuar a aprender. Sua vida inteira será a engenharia, você deve selar um compromisso consigo mesmo de que irá continuar adquirindo conhecimentos. Você vai precisar ter bases muito sólidas – e vocês estão tendo aqui. Mantenha-se atualizado, busque sempre se aprimorar. Esta é minha mensagem.

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